Clube de Leituras: “Crime e Castigo”

CLLLL
Terminei Crime e Castigo agora a pouco. Li até a última página e todas as notas de rodapé. Primeira impressão: adorei do livro e detestei o final. Esperava tudo, menos aquele final bonito onde há o arrependimento sincero, o renascimento de um homem e o seu amor há vida, baseado na máxima é o amor tudo salvação. Esperava tudo, menos um final quase religioso.
Ao ingressar no Clube de Leituras do LLL coloquei na obrigação de ler o livro, que foi postergada durante meio mês, uma vez que precisava terminar outro antes de iniciar. Foi muito bom ter me comprometido com a leitura e não me arrependo: o livro é maravilhoso, Dostoiévski escreve absurdamente bem, mas eu prefiro Kafka. Talvez depois da releitura de Kafka depois de quase dez anos eu mude de idéia, mas isso será uma reflexão para o próximo mês.
Até este mês o que conhecia de Dostoiévski vinha de seus contos e pequenos livros. Uma das coisas mais belas que li do escritor russo foi Uma Criatura Dócil: lindo. Ao longo de Crime e Castigo eu me perguntava sobre o que iria escrever sobre o livro e depois de muito pensar concluí que a minha melhor saída era apresentar algumas observações sobre o livro e ver no que dava.
Crime e Castigo
O livro
Se o livro não fosse envolvente não o teria terminado. Comecei a ler de modo tímido: um pouco por vez, depois capítulos e por fim li 300 páginas de uma vez (por obrigação também, mas se não fosse bom não teria terminado). A leitura do livro não é fácil, não é fluída e em muitos momentos só queria que o diálogo terminasse: queria saber o que aconteceria depois. As personagens são quase verborrágicas: ou pensam muito ou falam muito. Mas é justamente através das palavras das personagens e seus pensamentos que Dostoievski tece o perfil de suas personagens e não apenas com as descrições.
A loucura e a impulsividade de Raskólnikov iam me envolvendo a tal ponto durante a leitura que ao terminar o capítulo que antecede ao assassinato de velha eu só pensava: “ele vai matar a velha”. Quase tão louca e eufórica quanto ele. Mas fui vítima da tensão da loucura que aos poucos dominando Ródia, através do perfil psicológico traçado pelo escritor. As falas e pensamentos do personagem vão aos poucos se mesclando e não se sabe até quando é dito e quanto é apenas pensado.
A forma de pensar de Raskólnikov é que o compromete. Em sua teoria de ordinários e extraordinários, ao se colocar no papel da pessoa de talento, dom para dizer a “palavra nova”, ele se permite passar através dos obstáculos para comprovar a sua teoria. Ele não se importa com os seres ordinários, tanto que se entrega através de suas atitudes diante deles. Em suas atitudes motivadas pela culpa quase em delírio logo após despertar de dias enfermo, ele cria circunstâncias para ser entregue à polícia, o que, aliás, ele quer. E são essas várias ações que ele executa em delírio, observada pelos seres “ordinários”, que o levam a ser incriminado ao final.
Raskólnikov pensa em voz alta, fala sozinho pelas ruas, gesticula sozinho, expressa seus pensamentos em expressões e suas atitudes e discurso o entregam. Entregam seu crime e sua loucura. Dostoiévski o declara como louco ao dizer, por exemplo, riu estranhamente. As outras personagens o acusam ao longo do livro. Raskólnikov mesmo acha que está louco. Em seus pensamentos obsessivos antes daquilo acontecer, ele diz para si mesmo “é a doença que gera o crime ou é o próprio crime, por sua natureza específica, de certa forma é sempre acompanhado de algo como uma doença?“. Aliás, a descrição de como a loucura se desenvolve no personagem vale o livro.
Outro momento fabuloso do livro é o jogo psicológico de verdades e mentiras travado diversas vezes por Raskólnikov e Porfiri engana serve também para enganar ao leitor que já não sabe mais o que inspetor sabe ou não, se está sendo bom ou sarcástico, se sabe tudo e finge ou não sabe nada e é um tolo que não quer crer. Raskólnikov só entrega a polícia por causa de sua culpa, sua culpa atormentada por Porfiri e sua mente. Não se entrega por te matado a velha, mas por seu ato vil.
Dostoievski faz uma dura crítica à sociedade russa da metade do século XIX. Através da personagem do narcisista e engomado Piotr Pietróvich Lújin critica a burguesia com mais posses, que menospreza os pobres e quer apenas se impor diante dos mais fracos. Critica a nobreza fútil e não deixa de criticar os pobres, mas de modo mais ameno, com apenas alguns personagens.
É em defesa dos pobres que foram deixados de lado depois das reformas do Estado que se estabelece uma forte crítica social, uma denúncia. Para Dostoievski a miséria cria situações onde certos tipos de comportamento se tornam aceitáveis. Mostra o sentimento de impotência das pessoas diante das injustiças. Através de uma galeria de pessoas pobres que enlouquecem parece perguntar: a pobreza enlouquece? Ou no caso de Raskólnikov: o meio leva o homem ao crime? O autor também reflete sobre se é o meio que enlouquece quando diz que Petersburgo é uma cidade de semiloucos nas palavras de Svidrigáilov. Mas são apenas suposições e críticas a uma grande cidade, no fundo um grande país que abandonou seus pobres e camponeses e está mais preocupado com reformas burocráticas do que consertar o mau pela raiz. A filantropia ajuda, mas não acaba com os problemas, como diz Liebeziátnikov.
Dostoievski critica, mas não perde a fé nas pessoas. Mesmo na vileza de Svidrigáilov há um lado bom, mesmo diante de toda a pobreza ainda existe orgulho, como Catierina tenta passar, e mesmo diante de todos os sofrimentos e infortúnios há pessoas de coração puro que se doam em prol do próximo, com a personagem de Sófia. Raskólnikov e sua irmã Dúnia são duas faces de uma mesma pessoa, pois o comportamento dos dois é muito semelhante como afirma a mãe. E até no fim ele se arrepende do crime contra a velha e volta a encontrar paz e o prazer de viver.
O que mais?
Como já disse anteriormente odiei o final onde ele se redimi, o amor salva, ee volta a acreditar em Deus e coisas assim. Esperava algo mais seco, mais cítico, pessimista, niilista, espeava um de seus personagens falando. Mas apreciei muito o livro. Talvez o leia novamente, mas da próxima prefiro saber mais sobre o período históico na Rússia, política e sobre vida do autor.

Related Posts with Thumbnails
This entry was posted in books, literature and tagged , , . Bookmark the permalink.

13 Responses to Clube de Leituras: “Crime e Castigo”

  1. Bibi's box says:

    “Crime e Castigo” – outros blogs

    Outras pessoas também participaram do Clube de Leituras do LLL com suas observações, comentários, críticas e análises sobre o livro. Há alguns muito bons e é claro discordo de vários dos pontos de vista, mas há um material muito rico nos blogs e no fo…

  2. Bibi's box says:

    “Crime e Castigo” – outros blogs

    Outras pessoas também participaram do Clube de Leituras do LLL com suas observações, comentários, críticas e análises sobre o livro. Há alguns muito bons e é claro discordo de vários dos pontos de vista, mas há um material muito rico nos blogs e no fo…

  3. Bibi's box says:

    “Crime e Castigo” – outros blogs

    Outras pessoas também participaram do Clube de Leituras do LLL com suas observações, comentários, críticas e análises sobre o livro. Há alguns muito bons e é claro discordo de vários dos pontos de vista, mas há um material muito rico nos blogs e no fo…

  4. Bibi's box says:

    “Crime e Castigo” – outros blogs

    Outras pessoas também participaram do Clube de Leituras do LLL com suas observações, comentários, críticas e análises sobre o livro. Há alguns muito bons e é claro discordo de vários dos pontos de vista, mas há um material muito rico nos blogs e no fo…

  5. Bibi's box says:

    “Crime e Castigo” – outros blogs

    Outras pessoas também participaram do Clube de Leituras do LLL com suas observações, comentários, críticas e análises sobre o livro. Há alguns muito bons e é claro discordo de vários dos pontos de vista, mas há um material muito rico nos blogs e no fo…

  6. Engraçado, muita gente se decepcionou com o final, mas o cara não era um religioso fiel??? O final só podia dar nisso!!! O tempo todo ele dá pistas (a mulher redentora, o sacrifício da irmã, etc.), então a primeira vez que eu li, eu já esperava aquele final.

  7. Gesiel says:

    Fiz bem em não ler!
    Sem nenhum esforço acabei sabendo da história toda, inclusive comentada. Quer mais moleza que isto? 🙂
    Por favor, continuem e escolham outro livro, porque este já entendi. 😛

  8. Bibi says:

    Leandro, quem era religioso fiel? O Dostoievski? Duvido. Acho que era o Tolstoi, desse eu tenho certeza.
    Gesiel tudo isso ? “lezera” de ler? Assim n?o vale 😛
    Os pr?ximos livros s?o “A metamorfose” e “O Processo”. Os dois juntos. Como j? li preciso reler.

  9. Bibi's box says:

    Crime e castigo e o cinema

    Zbrodnia i Kara Há algumas coisas que eu não falei no meu post sobre Crime e Castigo, por falta de tempo e porque achei que ficariam melhor em uma entrada à parte. Demorei um bocado para escrever, mas aqui estão. Crime e Castigo e o cinema Crime e cas…

  10. Bibi's box says:

    Crime e castigo e o cinema

    Zbrodnia i Kara Há algumas coisas que eu não falei no meu post sobre Crime e Castigo, por falta de tempo e porque achei que ficariam melhor em uma entrada à parte. Demorei um bocado para escrever, mas aqui estão. Crime e Castigo e o cinema Crime e cas…

  11. Bibi's box says:

    Crime e castigo e o cinema

    Zbrodnia i Kara Há algumas coisas que eu não falei no meu post sobre Crime e Castigo, por falta de tempo e porque achei que ficariam melhor em uma entrada à parte. Demorei um bocado para escrever, mas aqui estão. Crime e Castigo e o cinema Crime e cas…

  12. Bibi's box says:

    Crime e castigo e o cinema

    Zbrodnia i Kara Há algumas coisas que eu não falei no meu post sobre Crime e Castigo, por falta de tempo e porque achei que ficariam melhor em uma entrada à parte. Demorei um bocado para escrever, mas aqui estão. Crime e Castigo e o cinema Crime e cas…

  13. Bibi's box says:

    Crime e castigo e o cinema

    Zbrodnia i Kara Há algumas coisas que eu não falei no meu post sobre Crime e Castigo, por falta de tempo e porque achei que ficariam melhor em uma entrada à parte. Demorei um bocado para escrever, mas aqui estão. Crime e Castigo e o cinema Crime e cas…

Comments are closed.